quarta-feira, novembro 15, 2006

Drama no parque Eduardo VII

Bem cada vez mais me sinto uma carie bradawash… ora aqui estou eu sentado numa mesa de café e a beber um compal vitae de frutos vermelhos… não é bem um cosmopolitan ou um mannhattan, também não estou a comer nenhum donut, nem sequer estou na esquina da 5ª avenida com a 24ª avenida em Nova Iorque.
Mas em compensação estou em Lisboa, sentado numa típica pastelaria de um pequeno bairro lisboeta.
Lá fora a chuva não para.
Mas até tenho banda sonora, como musica de fundo, Jump - Madonna.
Eu aqui sentado, espero que não se atrazem muito mais do que já estão.
A pouco, enquanto conduzia para aqui, reparei num pequeno placar meio solto, que esvoaçava quase em câmara lenta. Estava o cenário ideal, para um filme de terror… por momentos pareceu que o tempo havia parado para todos menos para mim… as arvores abanavam-se quase de uma forma coreografada, onde os movimentos pareciam cada vez mais lentos… não havia um único carro ou ser que estivesse a quebrar aquele momento…estava tudo demasiado em sintonia… literalmente nada até ao horizonte parecia estar em movimento a não ser eu.
Chegaram os amigos…
Bazaram os amigos…
Voltei a ficar aqui sozinho, só mesmo para acabar de escrever este texto…
Nem sequer sei o que vou escrever… tinha tanto para dizer… mas simplesmente não posso…
Mas acho que o melhor é contar o episódio que ontem a noite me retirou o fôlego…
Passo a explicar… já era tarde e chovia muito… depois de sair do cinema e como estava ali ao lado, resolvi fazer um pequeno tour pelo parque Eduardo VII. Sempre havia tido curiosidade em saber quanto é que aqueles pequenos que ali estão quase todas as noites levavam pelos seus serviços… nessa noite como chovia até parecia estar pouca gente… na sua maioria eram rapazes que aparentavam ter menos de 20 anos… todos com um ar de mitra, calças de fato de treino, brincos a Cristiano Ronaldo… etc etc etc
No meio deles todos 2 pessoas haviam me chamado a atenção, um deles era um brasileiro que eu já havia visto pela net e com quem um amigo meu já havia curtido uma vez numa discoteca de Lisboa, confesso que se por um lado achei nojento, por outro lado não achei estranho… é uma forma de arranjarem dinheiro fácil, estão cá sozinhos… mas não deixei de sentir uma espécie de repugnância… quando já estava quase a ir embora. E já quase na esquina do el corte inglês, reparo num sorriso lindo, mesmo ali ao meu lado… era um rapaz ainda bem novo, com muitíssimo bom aspecto, cabelo escuro com gel ou molhado da chuva que caia… olhou para mim disse um adeus e sorriu e fez um sinal com a cabeça… confesso que pela primeira vez na minha vida fiquei de pernas a tremer. Nem mais… aquele sorriso havia despertado algo em mim… não estava a perceber bem o que era, se foi pena de ver um rapaz tão giro ali, a sujeitar-se a algo tão degradante, se fora a curiosidade de saber mais, se foi mesmo porque não vou esquecer aquele sorriso.
Já estava no marques de Pombal, quando me apercebi, que não podia ir embora assim. Eu não podia ir embora sem no mínimo ouvir a voz daquele rapaz… mas o que ia eu fazer? Como? Eu não ia chegar ali e meter conversa, como se de um cliente se tratasse… não, não podia ser… mas uma coisa eu sabia, eu precisava de ver aquele sorriso outra vez… tinha sido demasiado envolvente para simplesmente ignorar. Num perfeito acto de loucura e curiosidade e desejo… virei para a frente do sheraton hotel, passei junto a estatua do cutileiro apos uma breve paragem no vermelho e segui para cortar para a rua paralela ao António Augusto Aguiar, e lá estava eu na mesma esquina… então e agora???
Eu estava ali feito parvo a olhar a ver se via aquele sorriso… e cheguei tarde, nada… estava invadido por um misto de vergonha e frustração, estava ali no mesmo sitio a olhar a ver se o via… se via aquele sorriso, pensei - cheguei tarde já algum velho decadente e gordo… num daqueles Mercedes que não cabem num lugar de estacionamento comum… já o tinha levado a dar uma volta…
Ok.. acontece… esta na altura de voltar ao mundo real… era só um prostituto com bom aspecto… como eles existem tantos por ai e ninguém sabe…
Mas… eu tinha que ir embora sem o voltar a ver… não me parecia justo… mas quem disse que a vida era justa? Pois não é mesmo…
Mas … uns metros mais a baixo, ali estava com aquele casaco branco e com a sua t-shirt branca da billabong a olhar para mim e a sorrir… irresistível… tive que parar… e agora????
Todo eu estava a tremer, não so era a primeira vez que estava ali a parar, como estava a falar com um homem lindo… abri um pouco o vidro e ele veio logo apressadamente dizer boa noite… eu respondi…
Apertou-me a mão e sorriu-me, e disse então que se faz por aqui…
Ok… agora sim era a parte difícil, eu tinha que falar, ia ter que saber o que dizer, mas o que é que se diz a um prostituto? Pergunta-se o preço? O que faz? Sei lá… alguém me ajuda pensei em breves momentos…
Respondi-lhe depois do breve silencio… vim dar uma volta… ver o que por aqui esta…
E tu?perguntei eu .
Precisava de arranjar uns trocos extras vim até aqui…
E agora ele olhava para mim como se estivesse a espera que eu dissesse “então entra ai”
E agora… aiiiiiiiiii rapidoooo rápidoooooo
Então e quanto é? Perguntei eu… (eu não acreditava no que acabava de ter perguntado… não, porque eu não lhe disse que simplesmente tinha achado o sorriso dele lindo…quando havia passado e que não me consegui ir embora sem antes ter que falar com ele… era demasiado embaraçoso admiti-lo, não eu não o ia fazer, calculava que ele fizesse aquele sorriso a todos os que por ali passavam…)
Ele respondeu… 20 euros o broche, 30 euros tudo…
Ok… e agora sim eu estava alarmado… como é que alguém tão bonito com um olhar tão meigo e uma voz tão delicada e doce e com aquele sorriso que parecia ter sido iluminado… podia se vender por tão pouco… 20 euros? Mas … como … tão pouco??? Hummm ok disse eu…
E neste momento a minha curiosidade estava a tomar conta de mim e eu queria era saber o que era o tudo… e perguntei logo de seguida, o que era para ele o tudo… ou seja se ele era act ou pass.
Pronto desilusão, gostávamos do mesmo… lolol já não era assim tão perfeito… mas disse logo… que também tinha um forte lado de versatilidade…
E eu pensei logo… tu queres é dinheiro…
Fiz um ar de lamentação e quando ia para dizer que me ia, ele sorriu e disse… posso saber como te chamas? E eu… K medooooo, muito medo… mas respondi, como se aquele sorriso de miúdo grande, tivesse me dado alguma segurança, então e o teu? Eu sou o Miguel (possivelmente ele mentia no nome dele, tal como ele deveria ter pensado que eu menti no meu) e disse logo, muito prazer. Como sempre respondi muito gosto, e pisquei o olho… e ele disse “se um dia tivesse um filho, gostava que tivesse o teu nome, gosto muito, se pudesse mudar o meu nome metia o teu em vez do meu primeiro nome que odeio… é porque Miguel é o meu segundo nome” aiiiiiii neste momento eu estava em pânico como é que eu me descartava, como é que eu saia dali? Eu sorri e quando me preparava para falar e dizer que ia embora… ele diz logo… a sério não penses que estou a dizer isto so por dizer. Gosto mesmo muito do teu nome, um nome tipicamente português e sem correspondência em mais nenhuma língua..”
E neste momento, eu estava mesmo assustado… afinal aquele lindo sorriso, era mesmo alguém com algum género de inteligência não era um daqueles que vinham das barracas, so porque haviam percebido que aquela era a forma de ganhar algum dinheiro… sacado aos senhores que ali iam. Acredito que muitos fossem assaltados por aqueles rapazes… porque o ar deles era do mais duvidosos possível.
Mas aquele parecia em tudo diferente. No sorriso a postura o aspecto… mesmo sem falar com os outros dava para perceber que aquele tinha conversa…
Fiquei ainda mais assustado… 20 euros… tão pouco… as minhas pernas tremiam… o que fazer? Digo que só ali estava para o ver??? Não, demasiado ridículo, ele ainda dizia… que eu estava a faze-lo perder tempo… ele fazia um olhar muito simpático e sorria de forma ligeira, como se esperasse por um, podes entrar.
Foi muito simpático falar contigo Miguel, dizia eu enquanto ajeitava o cinto e ligava o carro, ele olhou para mim com um ar triste que não vou esquecer tão depressa, e meio por entre a pequena fresta da janela disse. Já te vais? Eu sou versátil.
Já não sabia o que fazer, eu não ia dar dinheiro para ir para a cama com alguém, não é contra os meus princípios, ainda sou demasiado novo para precisar desse género de serviços, e depois o risco que seria, ir com alguém que se prostitui. Mas a realidade é que o perigo também se esconde em pessoas que as vezes nem sonhamos...
Mas quase em tiro de desespero, como se eu fosse a tábua de salvação, ele disse “mas eu também beijo se quiseres”, ok, eu estava mesmo assustado, parecia que não havia sido só eu a sentir alguma empatia, ou será que aquilo era conversa já habitual? Não sei estava cheio de duvidas, queria sair dali o mais rápido possível… disse vou dar mais uma volta, espero que nos vejamos daqui a pouco.
Ele fez um olhar e um sorriso triste e disse ok.. até já e afastou-se um pouco.
Eu estava destroçado, mas não sabia bem porque, era como se tivesse acabado deixar ali a traz uma criança chorosa e perdida no meio de uma multidão devassa e decadente… a chuva estava agora mais intensa, ajudando ainda mais a turvar-me a vista… fiz inversão de marcha e voltei a passar por ele… abri o vidro meti a mão de fora fiz um pequeno sinal de adeus e disse “tens um sorriso lindo” ele olhou deu um pequeno sorriso e disse “e tu tens uns lábios perfeitos” e acenou com a mão.
Já estava de novo a caminho de casa, o caminho foi breve e a pensar naqueles breves momentos, e no turbilhão de ideias, tudo tinha me parecido incrivelmente surreal, pensei que por momentos a minha vida tivesse ganho a dimensão de uma tela de cinema e eu não passasse de uma daquelas personagens parvas que ainda se apaixona. Nada daquilo me parecia real ou verdadeiro, pensei ter sonhado… toda aquela beleza numa so pessoa? Não é possível, simplesmente não era possível, não era possível ele estar ali a prostituir-se, não era possível eu ter dito o que disse, não era possível eu ter saído dali sem o numero de telemóvel, não era possível eu ter metido conversa, e 20 euros por aquilo? Também não era possível, como???? Era como estar na fashion clinic e comprar prada por 20 euros, não, era irreal.
Não sabia se estava contente por ter metido conversa, ou se estava triste por tudo aquilo ser tão lamentável, como é que será que ele esta pensava eu…
Fiquei destroçadamente confuso, sentia pena? Desejo? Curiosidade? Afecto? Apenas lamentava? Não sei, acho que sentia tudo e muito mais. E pensava apenas como é possível.
Daqui a pouco voltarei la a passar para ver se vejo tão belo brilho.
Ok… tive azar… nada… nem vestígios de um brilho diferente.
Life goes on…

3 Comments:

Anonymous Anónimo said...

:)

ainda bem que vim aqui parar pelo acaso...
ainda há pessoas como tu.
às vezes nem acredito.

Felicidades!!! e muitas!

P.

22 de dezembro de 2006 às 23:43:00 WET  
Blogger Unknown said...

o meu segundo nome é miguel e essa historia parece-me muito familiar, sabes é que eu já estive no Parque Eduardo VII e esta historia parece-me mesmo mesmo familiar, escreve-me lov.my.ass@gmail.com

10 de agosto de 2010 às 16:28:00 WEST  
Blogger Unknown said...

Olá, adorei esta história e parvamente romântico que sou morro por saber como continuou/acabou... Love

30 de agosto de 2018 às 10:49:00 WEST  

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